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fazendo por merecer

Olá, queridos leitores. Mês passado escrevi aqueles dois pequenos dicionários de coisas que cada um, dividindo o mundo por gêneros, quer dizer, de verdade, ao falar determinadas coisas. As entrelinhas são a grande mágica da comunicação e o que é falado, propriamente dito, não representa, na maioria das vezes, o que é falado.

A linguagem é nosso simulacro da realidade.

Cito os dois textos ("o que eles querem dizer?" e "o que elas querem dizer") porque vi na televisão, recentemente, uma propaganda que sintetizou, com louvor, as entrelinhas daqueles dois textos. Sem delongas, eis a propaganda do Fusion, carro lançado pela Ford em 2009:



O comercial, para quem tem preguiça de assistir ou para quem sente raiva quando o YouTube não coopera, é basicamente ambientado num almoço de negócios, onde uma executiva pergunta para um executivo: "como você se imagina daqui a cinco anos?". Ele imagina-se andando no novo Fusion com a executiva do lado, ao som de AC~DC.

O homem, coitado, só pensa em transar, óbvio.

Daqui cinco anos queria estar pegando uma gostosa. Dúvidas? Basta reler o texto o que eles querem dizer?. Quando o devaneio acaba, ele rebate a mesma pergunta para a executiva: "e você?". Ela imagina-se andando no banco de trás do novo Fusion com o rapaz dirigindo para ela, lendo um jornal e ao som de AC~DC.

A mulher, castrada, só pensa em poder, óbvio.


Daqui cinco anos eu queria ter um belo homem submisso a mim. Dúvidas? Basta reler o texto o que elas querem dizer. O devaneio acaba e o slogan "quem dirige o novo Fusion, fez por merecer".

Você, leitor sagaz, poderia dizer que a mulher poderia ser trocada por qualquer criatura que represente uma minoria silenciada ou subjugada (minoria é o caralho, porque tem mais mulher no Brasil que homem. tem mais negros e tem homossexual fazendo passeata com dois milhões e meio de pessoas em tudo quanto é capital por aí). Sim, poderia. Mas o autor do comercial escolheu um homem e uma mulher. Portanto, ao invés de ficar especulando, vamos nos ater aos fatos (porque se minha avó tivesse um bigode, eu teria três avôs).

As feministas de plantão dirão: "esse comercial rompe paradigmas!". Bobagem. Quem for observador atencioso da realidade humana, já sacou que as mulheres querem mandar e os homens querem transar. Os machistas por conveniência ficarão ultrajados. Os machistas espertos dirão: "ela tá dando pro chofer". Os comunistas ficarão enojados. Os capitalistas ficarão com os olhos brilhando.

Mil possibilidades de interpretação. Fico com uma. O comercial do Fusion, para mim, veio para fundir os dois textos que escrevi e aqui cito. Como uma luva. Como um eco inteligente. Como um desdobramento natural. Como água para chocolate.

Ao som de AC~DC, claro.

 



Escrito por Henrique Wollny �s 15h27
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uma singela homenagem

Anteontem morreu meu cachorro. Tá. Não era meu. Era da minha irmã. Mas vivia enfurnado debaixo das pernas de minha mãe. Eu não gostava muito dela. Era ela. Uma cadela. Dourada. Vira-lata. Feia. E ela não gostava muito de mim. Eu, para ela, era apenas um ser humano esquisito e chato.

Eu implicava com ela e ela implicava comigo.

Mas aí, ela envelheceu. E eu parei de implicar. E ela parou de rosnar. Ficávamos assim. Respeitando o espaço um do outro. Como cães em uma matilha. E o tempo passou, e eu ainda continuava detestando ela. E assim foi, até o dia em que ela começou a padecer.

Câncer. Sempre aí, para avacalhar a vida alheia.

E os olhos ficaram cegos. E as orelhas ficaram surdas. E a boca ficou sem dente. O latido? Quase não havia mais. O corpo foi crescendo, contaminado por células contaminantes e, em uma bela madrugada, a respiração começou a ficar lenta, aflitiva e pesada.

E o câncer a tomou, como era de se esperar.

Faço aqui, uma singela homenagem a esse bicho que eu detestava. Podem falar que é loucura, podem apontar a incoerência. Podem falar o que quiserem falar. Homenageio-a assim mesmo. Os mais inquisitivos vão perguntar: "porque você está homenageando um cachorro que você detestava?". E eu direi:

O verbo detestar precisa de objeto direto.

E anteontem esse objeto direto cessou existência.

Vai e fica com Deus, se é que ele existe para os cães, Tula.



Escrito por Henrique Wollny �s 19h48
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miopia, um mal necessário

Sou míope. Não tenho vergonha de assumir ou admitir isso. A miopia é tipo um filtro de Photoshop que faz a gente ver borrado tudo aquilo que está longe. E sabe o que é pior? O que está perto acaba ficando borrado no meio do caminho, pois sem a noção de profundidade, tudo ganha uma profundeza impressionante.

Portanto, se um míope disse que você era provido de beleza, ignore.

Mas não ignore tanto assim. O míope é psicótico por natureza (ou por aquisição, né?). Ele vê a realidade distorcida. Ele vê tudo como um grande borrão bonito e de cores vivazes. As folhas não tem contornos. As copas das árvores parecem um grande algodão doce verde. As nuvens no céu tem aspecto aquarelado. Manchas na parede são sombras. Sombras são manchas na parede. Na praia, não existem grãos. Apenas um tapete imenso de areia. A água não passa de um degradê do céu.

A realidade, para o míope, é como o míope a vê. É do jeito que ele quer.

Entretanto, se a copa das árvores vira algodão doce, se as nuvens viram aquarelas, se sombras fundem com paredes, se praias são imensos carpetes esbranquiçados e se mares são extensões de um céu azul, lindo e maravilhoso...

Então, se um míope disser que você é provido de beleza, dê ouvidos.


Porque os olhos carregam esse mistério, sabe? Eles são a janela pela qual o mundo se mostra pra gente. Olhos nos são o canal da alegria. Olhos nos são o canal da felicidade. Olhos nos dão elementos para a imaginação. Eles também nos dão aquelas coisas ruins, tristes e que fazem parte do mundo.

Mas o olhar míope transforma tudo em beleza.

Olhos verdes são sinceros. Olhos azuis são efusivos. Olhos pretos são austeros. Olhos mel são covardes. Olhos cinzas são extravagantes. Fico com os castanhos. Sua proposta é sempre procurar elementos inovadores. São curiosos por natureza. Só fazem pular de um lado pro outro, buscando a beleza que o mundo tem a oferecer.

Sempre. Em qualquer lugar. Sem chorar.

Para vocês que são míopes (e só vocês verão a beleza desse lugar), fica um convite:

Bora pra Bora Bora?

 



Escrito por Henrique Wollny �s 21h38
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doces cafetinas

Dizem os antigos sacerdotes de Ilhéus que todo homem deveria conhecer, em vida, doze tipos de mulheres. Uma para cada signo. Cada uma representando um alimento ou bebida feita de café. O folclore é vastíssimo na Bahia e o oráculo de Ilhéus é pouco conhecido aqui no Sudeste. E através da literatura (ciência da ficção), podemos propagar todo esse conhecimento que corre o risco de perder-se por aí.

Afinal de contas, memória e imaginação são tão diferentes que se tornam praticamente iguais.

Conhecer uma ariana seria como provar um Mousse de Café. O sabor fica todo concentrado ali. Ela é cremosa, concentrada. Precisa ser absorvida com colheradas rápidas. Uma leonina é um Licor de Café. Alcoólico o suficiente para ser dramática e doce o suficiente para querermos provar novamente. A sagitariana seria um Geladinho de Café. Não se engane com o nome, o café aqui é forte e o teor alcoólico é altíssimo.

Essas nos marcam a ferro e fogo.

Relacionar-se com uma taurina é saber apreciar a praticidade de um Expresso Duplo. Rápida, fácil e extremamente prazeirosa. Vale a pena repetir a dose quantas vezes achar necessário. A virginiana é um Café de Vó coado no coador de nossas avós. Todo o requinte e sabor que possuem o peso e valem uma vida inteira. As capricornianas são Capuccinos com Chantily. Inicialmente parecem organizadas, mas quando o doce mistura-se ao café é que a coisa fica boa.

Essas nos dão segurança.

Beijar uma geminiana é como morder uma Trufa de Café. A gente espera uma coisa e de repente é outra. Arrisque a sorte, é 50% de chance da segunda coisa ser melhor que a primeira. Dar as mãos a libriana é como tomar uma Mocca. É experimentar o equilíbrio a cada instante. E gostar disso. A aquariana não passa de um Scottish Coffee. Prove e veja o mundo da melhor forma possível, uma vez que a fumaça (e a bebida) quente subir para a cabeça.

Essas nos fazem voar.

Conviver com uma canceriana é como comer um Bolo de Café com Passas. É bom, mas tem passas. Vale a pena, se você conseguir engolir a parte ruim sem fazer careta. Uma escorpiana é como um Pudim de Café com Nozes. Existe um buraco no meio, mas cada noz ali compensa. Cuidado para não engasgar com as nozes, entretanto. Já as piscianas, são o Amor-Perfeito. A quantidade ótima de café. A quantidade certa de açúcar. A quantidade ideal de chocolate. Pura glicose, pura alegria. Vale a pena se fartar desse sonho líquido.

Essas nos fazem flutuar.

Olhem aí, leitores. Escolham a sua cafetina (trocadilho infame!) favorita. Mulherada, não se acanhe. O oráculo de Ilhéus também deixa vocês escolherem seus cafetões (ó ele aí de novo, ó!). Eu digo que a minha favorita é a de Peixes.

É o melhor amor, quando o amor tem gosto de café.



Escrito por Henrique Wollny �s 23h00
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